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© 2017 por Multicentro Saúde. 

Relato de paciente com depressão

March 14, 2018

 

 

Carta Sobre Viver a Depressão
Aqui ela chegou quando eu tinha uns 5 anos, talvez antes mas não tenho lembranças. Ela é o breu, um manto pesado que te cobre até a cabeça, ela é uma dor que aperta o coração gerando uma angústia que nunca entendi de onde vinha, mas no final entendia que só minha poderia ser a culpa. Sim eu tinha depressão e, sim como tudo (de errado) na minha vida, sentir depressão me fazia sentir tbm que era culpa minha.

Remédios. Shampoo Veterinário. Auto flagelo. Dos mais ridículos itens, aos mais sofisticados, fiz uso por diversas vezes com intuito de dar fim na minha vida. E todas as vezes que fui longe, ou fiquei na cama esperando encontrar a morte, na verdade, nunca quis realmente morrer, queria sim dar um fim naquela dor, naquele sofrimento que pareciam não ter outra solução, sabe… Se aparecesse alguém que tirasse aquilo de mim sem me matar, eu toparia viver até o fim.

Quando se está em crise, tudo é muito triste, uma tristeza mórbida, difícil de explicar, sabe aquela tristeza de se perder um ente querido, que gera um choro desesperador? A diferença é que por trás desse choro está o amor. Em crise, a raiva de si toma o lugar desse amor, em crise é como se tudo estivesse empoeirado, como se os sorrisos, os abraços, fossem todos interpretados.

Como somos diferentes em tudo, cada um melhora com um tipo de terapia diferente, mas isso ninguém nunca tinha me contado. Já tinha passado por várias e já tinha perdido a esperança… quando há 5 anos atrás, ao acaso, conheci a terapia cognitiva. Aprendi que pra sobreviver, entre muitas coisas, é preciso ter uma rede de apoio, que essa rede pode ser variada, que quem faz parte dela hj, pode não fazer amanhã, e que amanhã terão pessoas novas nessa rede.

Aprendi que eu posso expressar a minha dor, aprendi que convivo tão pesadamente com essa tal depressão que ao me apresentar não seria nada demais apresentá la tbm. Aprendi que as pessoas da realidade são mais solidárias do que as pessoas da imaginação criadas pela minha depressão.

O dia que eu descobri que minhas tentativas de suicídio vinham não pq eu queria morrer e sim pq eu queria que aquela dor morresse, me fez prestar mais atenção aos sinais que meu corpo dá quando ele ta entrando em surto prestes a fazer uma besteira. Certa vez esses sinais vieram, a dor apertou, as mãos tremiam, eu suava, precisava acabar com a aquilo, mas não podia me enganar e morrer, por ironia do destino eu tinha uma sacola de calmantes que havia acabado de comprar, eu precisava de uma rede de apoio, estava chegando no trabalho onde não estavam minhas melhores amigas, mas eu precisava montar uma rede rápido ou em segundos eu já não poderia me controlar. Ao entrar no escritório vi um dos colegas que eu mais era apegada, e mesmo sem intimidade cheguei nele e disse: Eu estou passando mal, guarda esses remédios onde eu não saiba por favor! ~ assim ele fez, sem julgar. Ao meu amigo mais íntimo pedi que pegasse os remédios, guardasse com ele e me liberasse um comprimido por dia até eu melhorar, e assim ele fez, sem julgar, por 3 dias. Juntos, eu com minha coragem que surgiu em meio dor, vinda do conhecimento que adquiri na terapia, e eles que apenas me respeitaram como respeitam qualquer doente, salvamos uma vida.

Assim tenho enfrentado minhas crises, com muito respeito próprio, e pedindo ajuda sem pré julgar o outro. A gente sempre tem aquela neura de que ninguém entende e, realmente, ninguém entende, sabe porque? Pq ninguém entende uma situação nunca vivida e nunca narrada. Por anos as pessoas com quem eu convivia não me entendiam, por anos eu não narrei com sinceridade. Por anos estive em situações forçadas, hoje em dias insuportáveis eu digo: Não vai rolar, to deprimida de mais pra sair, vou me tratar com carinho. Por anos, tive crises na rua, sozinha, hoje em dia eu mando mensagem: Miga, me manda áudio dizendo que vai ficar tudo bem? ~ e eu também entendo que aquela mensagem pode não ter resposta pq as pessoas estão vivendo suas vidas e, por isso, sem mágoa e mantendo o foco tento outra pessoa e no fim a calmaria em forma de mensagem vem.

Aprendi, amadureci muito e sobrevivo a ela todos os dias. E quanto mais eu venço essa batalha mais eu vivo, mais minhas relações são reais, mais eu olho e me admiro.

Se vc passa por isso: Mantenha a calma, pratique auto respeito, confie, mesmo que às cegas, de que a crise vai passar (pq ela passa), e saiba que terapia e psiquiatria vão lhe ajudar muito.

Se vc tem perto de vc alguém que passa por isso: Cuide e desmonstre carinho, ouça e não julgue as reclamações, não cobre bom humor todos os dias, perdoe os compromissos cancelados, não a trate como se ela fosse uma bola de sabão prestes a estourar, e nem com grosseria (pra criar caráter), faça a se sentir uma pessoa normal, converse sobre coisas nada a ver, conte sobre sua vida, ouça a falar sobre a vida dela, mas principalmente, ajude a tirar o foco da crise, assim vc a faz entender que ter depressão não é o fim do mundo, pois há sim uma luz no fim do túnel.

Por uma sociedade que fale mais abertamente sobre depressão, por uma sociedade que de a devida importância a prevenção ao suicídio.

Rafaella Aquino, 33 anos, sobrevivente.

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